Gosto de imaginar-me voltando alguns séculos no tempo para vivenciar, na minha cabeça, um forte choque cultural. Porém, diferentemente de Marty McFly no filme De volta para o futuro, não o faria disfarçado nem tentaria passar incólume por entre os cidadãos da época. Permitiria-me ser identificado como um viajante do tempo e, ainda, carregaria um notebook na mochila com algumas evidências de minha origem futura.
Se isso fosse possível, gostaria que ocorresse assim:
Aproximo-me de um sujeito em um café no centro da cidade, numa tarde primaveril, em 1810.
— Oi, beleza?
Ele levanta os olhos do livro, mantém a xícara junto aos lábios.
— Eu vim do futuro!
Franze o cenho.
— Como, meu jovem?
— Vim do futuro, do século XXI.
Ele me olha de cima a baixo, estuda minhas roupas.
— Do futuro, ele diz! Se és do futuro, eu não sei, mas isso o que estás vestindo é, sem dúvida, atípico!
— Se chama calça jeans, tênis e camiseta. Vai demorar um pouco para surgir, mas vai ser muito popular.
Jogo a mochila sobre a mesa, ele afasta o corpo, espantado com minha indiscrição. Puxo uma cadeira, sento a sua frente.
— Mas que atrevimento! O que é isso?
Coloco um notebook sobre a mesa.
— Um notebook. Um computador portátil.
— Um o que? Vou chamar o garção! — estica o pescoço, em direção ao caixa.
— Relaxa. Eu só quero te mostrar umas coisas.
Abro o aparelho, ligo-o; meu anfitrião olha desconfiado para as luzes que se acendem. Intriga-se com o logotipo do Windows na tela.
— Mas que diabos…
— Eu disse que vim do futuro, não disse? — ele me encara. Seu rosto está amarrado em interrogações. O Windows carrega.
— Eu quero te mostrar alguns vídeos e fotos do futuro, de onde venho.
— Isto é um delírio?
— Não, é bem real. Meu nome é Vitor, a propósito. Nasci em 1982 e vim lhe trazer amostras de um futuro assombroso.
Na tela, abro uma pasta com o nome Viagem no tempo. Há vídeos e fotos nela. Meu amigo tem os olhos arregalados. Posiciono o computador diante dele.
— Isto é uma bomba atômica — digo, deixando rodar alguns vídeos de explosões nucleares levantando casas e porta-aviões. — É um instrumento de guerra que será utilizado poucas vezes.
Meu interlocutor está lívido. E assim ele continua, enquanto lhe apresento outras maravilhas do meu tempo, como o Concorde, um navio supercargueiro e um supercruzeiro. Mostro-lhe a Burj Khalifa e as Petronas Towers, um astronauta flutuando sobre a Terra, um helicóptero e trechos do filme Avatar. Apresento-lhe uma música do gritado Ministry e outra do lacônico João Gilberto, casais homossexuais com filhos, um robô cirurgião, outro numa linha de montagem, um submarino, um automóvel e tomografia computadorizada.
Assusta-se com os atletas levantadores de peso hiperanabolizados, maravilha-se com a Wikipedia, o centro financeiro de Shanghai e um diagrama da rede mundial de computadores. Fertilização artificial, sondas em Marte, telefone celular, break dance e máquina de lavar roupas lhe parecem mentira. Um trem bala, o túnel do Canal da Mancha, uma lâmpada, um engarrafamento, caneta esferográfica e Itaipu Binacional lhe deixam boquiaberto.
Impressiona-se com uma máquina fotográfica digital e com as imagens de um supermercado, lentes de contato e piercing na língua. Não entende a operação de troca de sexo ou o Rock in Rio. Apaixona-se pelo Jornal Nacional.
Desligo o notebook. Ele permanece em choque.
— E aí, o que achou?
— Ora. Ora, ora, ora. — Balança a cabeça, seus olhos correm sobre a mesa em ziguezague. Passa os dedos pelo bigode, como se isso o ajudasse a pensar — De quando vossa mercê veio, mesmo?
Respondo, ele brinca com o bigode.
— Mas isso é um assombro! Eu nem sei o que lhe dizer, meu jovem!
— Diga nada. Agora — pego o notebook sobre a mesa e tento enfiá-lo na mochila — eu preciso voltar.
O computador encontra obstáculo e não entra na bolsa. Do fundo, puxo uma cópia d’O príncipe, de Maquiavel, e repouso-o sobre a mesa.
— Mas isto é um livro! — segura-o — De Maquiavel!
— Sim, minha leitura durante a viagem — revelo, enquanto empurro o notebook ao fundo da mochila.
Ele estende o braço e mostra a capa do livro que lia quando lhe interrompi: também O príncipe, de Maquiavel. Sorri e pergunta:
— O que está achando?
— Acho que o autor usa muito aposto e entre vírgulas, o que torna o texto truncado e de difícil leitura.
Sorri, cruza os braços e sacode a cabeça, em aprovação.
Penduro a mochila num só ombro, levanto-me e apertamos as mãos. Ficamos assim alguns momentos. Quando saio do café, duas senhoras conversadeiras passam por mim, arrastando suas fímbrias pela calçada. A rua fede a merda de cavalo. O céu é azul e estou satisfeito.
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