12.8.12

Doença maldita

Uma senhora me catou na rua para que a ajudasse a levar seu marido, doente de Alzheimer, da poltrona para a cama. “Não te preocupes, não é assalto nem sequestro; a próxima cuidadora só chega às cinco e tu és o terceiro homem que eu abordo”. Olhei ao redor e entrei no apartamento térreo, desconfiado, mas assim que vi o marido, entendi a necessidade.

Um homem muito velho, olhar alienado, preso a uma sonda com urina, de pernas muito mais frouxas do que eu esperava. “Doença maldita, viu? A filha mora em Garibaldi, tenho que fazer isso todo dia”, explicou.

Ela me ensinou a segurá-lo e a conduzi-lo até a cama, passo a passo, por um apartamento pequeno e repleto de bibelôs pelos móveis. Ele balbuciava, parecia manha; eu ignorava. O sentamos na cama, segurei sua cabeça enquanto ela levantava suas pernas e carregava a bolsa de urina. Deitamos o velho, ela agradeceu. O celular tocou, era meu irmão avisando que já chegara. Ela agradeceu mais uma vez, eu disse que estaria no 306 do prédio em frente. Mais um agradecimento, me senti obrigado a agradecer também.


Doença maldita. Como pode um velho cuidar de outro? E, muito pior, quem cuidaria de um velho solitário?

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