A charge acima lembra de um debate que assisti na Sociedade Psicanalítica, há alguns anos, sobre violência na escola. Uma das questões mais discutidas na ocasião era a popularidade dos vídeos de violência física entre crianças e adolescentes captados com celulares. A alegação é de que jovens procedem dessa maneira por relacionarem-se com o “mundo real” da mesma maneira com que se relacionam com o video game.
No momento em que a testemunha ocular de uma violência saca um telefone celular e, ao invés de impedir o conflito, o registra em vídeo, os envolvidos na agressão tornam-se apenas REPRESENTAÇÃO em uma tela — tal qual personagens do MORTAL KOMBAT, STREET FIGHTER ou qualquer jogo do gênero. Isso é evidência do DISTANCIAMENTO e ausência de empatia (a capacidade de colocar-se no lugar do outro, a grosso modo) que a cultura contemporânea incentiva.
A ilustração acima registra isso. O papel social do indivíduo é reduzido a voyeur da tragédia. Violências e tragédias sempre existiram e sempre existirão; a mudança dá-se na ordem do FETICHE dos observadores, aqui relacionados com a ideia de sociedade do espetáculo, teoria cabal de Guy Debord sobre a “relação social entre pessoas mediadas por imagens”, em suas próprias palavras.
São crias do espetáculo a desagregação social, a passividade moderna, a alienação, a aceitação passiva, o fetichismo da mercadoria, a ausência de sentido (“o fim não é nada, o desenrolar é tudo”). Ou, ainda:
“A alienação do espectador em favor do objeto contemplado se expressa assim: quanto mais ele contempla, menos vive”. (DEBORD)
Pra saber mais, “A sociedade do espetáculo: comentários sobre a sociedade do espetáculo”, de Guy Debord, Editora Contraponto, 1997.